Decisão do MPF deixa sensação de impunidade entre brasileiros
O Conselho Superior do Ministério Público Federal (CSMPF) decidiu nesta sexta-feira (25), por 5 votos a 4, não abrir investigação contra o procurador-geral da República, Paulo Gonet, por sua relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
A decisão ocorre em meio a informações encontradas pela Polícia Federal no celular de Vorcaro e à divulgação de uma fotografia em que Gonet aparece ao lado do ex-banqueiro durante um evento em Londres, em 2024. Na imagem, Gonet aparece com um charuto na mão, enquanto os dois participavam de uma degustação de uísque. A autenticidade da fotografia foi confirmada pela própria PGR.
A fotografia ganhou ainda mais repercussão porque Gonet havia afirmado anteriormente que sua ligação com Vorcaro havia sido “brevíssima e banal”, intermediada por um advogado. Posteriormente, a PF encontrou o registro do encontro em Londres.
Decisão foi apertada
O pedido para aprofundar a apuração foi rejeitado por uma diferença de apenas um voto: 5 conselheiros votaram contra a investigação e 4 foram favoráveis.
Entre os votos favoráveis estava o da subprocuradora-geral Janice Ascari, que defendeu inicialmente uma apuração preliminar antes de uma eventual investigação.
Já o relator, Francisco Sanseverino, entendeu que os elementos apresentados não eram suficientes para justificar uma investigação. Segundo ele, as mensagens analisadas não comprovariam uma relação de amizade entre Gonet e Vorcaro e não poderiam ser interpretadas de forma isolada ou fora do contexto.
Gonet continuará atuando no caso Master
Em outra decisão, o Conselho Superior do MPF decidiu por unanimidade manter Paulo Gonet na análise dos processos relacionados ao Banco Master que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF).
Os nove conselheiros entenderam que o órgão não possui competência para afastar o procurador-geral da República desses processos.
A imagem do charuto virou símbolo do caso
A fotografia de Gonet e Vorcaro em Londres passou a ocupar um espaço central na repercussão do episódio.

Para parte dos brasileiros, a cena de uma autoridade que ocupa o cargo máximo do Ministério Público Federal ao lado de um poderoso ex-banqueiro, em um evento patrocinado pelo Banco Master, reforça uma sensação de proximidade entre autoridades e integrantes do setor financeiro que precisa ser esclarecida publicamente.
A imagem, por si só, não comprova irregularidade. A defesa de Vorcaro afirmou que não havia qualquer ilegalidade no encontro, enquanto pessoas próximas a Gonet disseram que a fotografia não demonstraria uma relação de intimidade entre os dois.
Mas o episódio deixa uma pergunta que vai além da decisão administrativa: quando autoridades responsáveis por fiscalizar e investigar pessoas poderosas aparecem próximas a elas, quem fiscaliza os próprios fiscais?
É justamente nesse ponto que surge a sensação de impunidade mencionada por parte da população. Para muitos brasileiros, o resultado de 5 votos a 4 para não investigar e a decisão unânime para manter Gonet nos processos do Banco Master podem transmitir a impressão de que as mesmas regras de transparência e escrutínio aplicadas aos cidadãos comuns não alcançam as autoridades no mesmo nível.
A decisão do CSMPF, entretanto, não declarou que houve crime ou irregularidade por parte de Gonet. O que foi decidido é que, naquele procedimento, a maioria dos conselheiros não identificou elementos suficientes para abrir a investigação solicitada.
O caso, portanto, continua cercado por questionamentos públicos sobre transparência, possível conflito de interesses e os limites da atuação de autoridades que ocupam posições de enorme poder dentro da República.

