Será mesmo que Augusto Cury é o novo Enéas?
Depois do debate da Band, uma comparação começou a ganhar força nas redes sociais: seria Augusto Cury o novo Enéas Carneiro?
A comparação pode parecer fazer sentido à primeira vista. Os dois são médicos, ficaram conhecidos fora da política tradicional, rejeitam o rótulo de esquerda ou direita e chamaram atenção em debates presidenciais.
Mas, quando se analisa com mais atenção a trajetória, as ideias e os projetos políticos de cada um, as diferenças aparecem de forma muito clara. Para analistas, colocar os dois no mesmo campo pode ser uma comparação superficial e que não representa o legado de Enéas Carneiro.
Enéas tinha um projeto nacionalista
Enéas Carneiro era, acima de tudo, um nacionalista. Sua defesa do Brasil não ficava apenas no discurso. Ele tinha um projeto de país baseado na soberania nacional e no fortalecimento do Estado brasileiro.
Foi um dos primeiros políticos a colocar o nióbio no centro do debate nacional. Também criticava a exportação de minérios sem beneficiamento e via com desconfiança os interesses estrangeiros sobre a Amazônia.
Para Enéas, a soberania brasileira era uma questão central.
Já Augusto Cury construiu sua atuação pública principalmente em torno de temas como saúde mental, educação emocional, comportamento e gestão das emoções. São assuntos importantes, mas muito diferentes da visão nacionalista e geopolítica defendida por Enéas.
A questão militar também mostra uma grande diferença
Uma das propostas mais conhecidas de Enéas era a defesa de um programa nuclear brasileiro, incluindo a possibilidade de o país desenvolver uma bomba atômica.
Ele acreditava que um país com o tamanho, a população e as riquezas do Brasil precisava ter capacidade militar e tecnológica para ser respeitado internacionalmente.
Também defendia o fortalecimento das Forças Armadas e enxergava o Brasil como uma futura potência.
Augusto Cury apresenta uma postura praticamente oposta nesse aspecto. No debate da Band, um dos momentos que mais repercutiram foi quando ele criticou a agressividade de Renan Santos e afirmou que aquela postura o “assombrava”.
Cury se apresenta como alguém ligado à pacificação, ao diálogo e à conciliação. São perfis políticos bastante diferentes.
Modelos econômicos também são diferentes
Enéas era um crítico duro dos grandes grupos econômicos internacionais. Questionava a influência do capital estrangeiro, criticava privatizações e defendia um Estado forte, protecionista e desenvolvimentista, capaz de planejar a industrialização e proteger os recursos estratégicos do país.
Cury segue uma linha diferente.
Ele já declarou ter uma “mente capitalista”, demonstra admiração por Paulo Guedes e defende medidas como redução de ministérios, responsabilidade fiscal e incentivo ao empreendedorismo.
Portanto, do ponto de vista econômico, os dois também apresentam diferenças importantes.
Enéas fez da política uma missão
Enéas fundou o PRONA (Partido de Reedificação da Ordem Nacional) porque não se identificava com os partidos existentes.
Durante sua trajetória política, ficou conhecido pelo estilo independente, pelas críticas ao establishment, à grande mídia e ao sistema político tradicional.
Também ficou marcada sua dedicação pessoal à política. Enéas chegou a vender bens para financiar campanhas e construiu sua trajetória política em torno de um projeto que considerava maior do que seus próprios interesses.
Cury, por outro lado, está filiado ao Avante, partido de centro, e declarou um patrimônio de aproximadamente R$ 242 milhões ao TSE, segundo os dados citados no debate sobre sua candidatura.
Essas circunstâncias também alimentam comparações e críticas nas redes sociais. Parte da imprensa e de analistas questiona se sua candidatura possui também uma dimensão de estratégia de marketing ligada à sua atuação como escritor e empresário.
Nas pautas de costumes, outra diferença
Enéas também era conhecido por suas posições firmes em temas como aborto, legalização das drogas, casamento entre pessoas do mesmo sexo e sexualização na televisão.
Independentemente de concordar ou não com suas opiniões, Enéas deixava claro o que defendia e não costumava suavizar suas posições para conquistar determinados grupos.
Cury adota uma postura mais moderada. Apresenta-se como alguém de centro, fala em diálogo, construção de pontes e pacificação, mas evita assumir posições tão rígidas em algumas das pautas mais polêmicas.
A formação intelectual também é diferente
Enéas era médico cardiologista e tinha uma formação acadêmica bastante diversificada. Estudou matemática e física, teve formação na UFRJ, escreveu livros e artigos e era conhecido por seu amplo conhecimento em diferentes áreas.
Também demonstrava grande interesse por filosofia, ciência e idiomas.
Augusto Cury, por sua vez, é psiquiatra e escritor. Tornou-se um dos autores brasileiros mais conhecidos na área de desenvolvimento pessoal e saúde emocional, com milhões de livros vendidos.
Seu trabalho tem enorme alcance comercial, mas pertence a uma área intelectual diferente daquela em que Enéas construiu sua trajetória.
Durante o debate, inclusive, o estilo de Cury foi associado por parte da imprensa e dos comentaristas a uma espécie de “autoajuda no palco político”.
“Nem esquerda, nem direita”
Talvez seja justamente aqui que a comparação entre os dois ganhe mais força.
Enéas também rejeitava a divisão tradicional entre esquerda e direita. Porém, sua rejeição tinha relação com uma visão política baseada em soberania nacional, nacionalismo, geopolítica e fortalecimento do Estado.
Para ele, o principal conflito não estava simplesmente entre esquerda e direita, mas entre países soberanos e interesses internacionais capazes de enfraquecer os Estados nacionais.
Cury também afirma não ser de esquerda nem de direita, mas apresenta uma proposta muito mais voltada ao centro político, à moderação, ao diálogo e à pacificação.
A frase pode ser parecida. O significado político por trás dela, porém, é bastante diferente.
Afinal, Cury é o novo Enéas?
A comparação provavelmente ganhou força porque os dois são médicos, possuem forte personalidade, vieram de fora da política tradicional e conseguiram viralizar em debates presidenciais.
Mas isso não significa que tenham o mesmo pensamento ou o mesmo projeto de país.
Enéas defendia um projeto nacionalista, com forte preocupação com soberania, indústria, defesa e poder estratégico do Brasil.
Cury construiu sua imagem política em torno da saúde mental, educação emocional, moderação, diálogo e conciliação.
Um defendia o Brasil como uma potência militar e tecnológica. O outro apresenta uma política centrada no comportamento humano, na pacificação e no equilíbrio emocional.
Por isso, dizer que Augusto Cury é simplesmente “o novo Enéas” pode ser uma comparação baseada apenas na aparência.
No fundo, as trajetórias, as ideias e os projetos políticos dos dois são muito diferentes.
E você, o que acha?
Augusto Cury tem alguma semelhança real com Enéas Carneiro ou essa comparação não passa de uma impressão causada pelo desempenho dos dois em debates presidenciais?

