Famílias políticas ainda disputam espaço e poder no Nordeste
Com mais de 54 milhões de habitantes, segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Nordeste é a segunda região mais populosa do Brasil. Além da forte identidade cultural e religiosa, a região também carrega uma longa história de desigualdade social, pobreza e disputas políticas.
Ao longo da história republicana, famílias tradicionais construíram forte influência em diferentes estados nordestinos. Em muitos casos, esse poder começou com o chamado coronelismo, sistema no qual líderes locais concentravam influência política e econômica e mantinham redes de apoio em seus territórios.
Com as mudanças políticas ocorridas no Brasil, incluindo golpes de Estado, mudanças de governo e o surgimento de novas lideranças, algumas dessas famílias conseguiram manter influência mesmo depois do enfraquecimento do coronelismo. Muitas atravessaram décadas, chegaram à redemocratização e continuam presentes na política.
O SBD mostra como algumas dessas famílias continuam disputando espaço e protagonismo nas eleições de 2026 e como os sobrenomes tradicionais ainda fazem parte do cenário político nordestino.
O peso de um sobrenome
Na política, o sobrenome muitas vezes representa mais do que uma identificação familiar. Ele pode carregar história, reconhecimento, alianças e uma rede de relações construída ao longo de décadas.
Na Bahia, por exemplo, famílias como os Magalhães, Carneiros e Bragas, entre outras, ocuparam espaços importantes na política municipal, regional e estadual ao longo dos últimos dois séculos.
O mesmo ocorreu em outros estados do Nordeste, onde diferentes grupos familiares conseguiram passar sua influência de uma geração para outra.
Para o cientista político João Vilas Boas, a força desses grupos está relacionada à transformação de uma liderança individual em uma estrutura política capaz de sobreviver ao tempo.
“Essas famílias se consolidaram porque conseguiram transformar poder individual em estrutura política. Em geral, uma liderança constrói uma base eleitoral, estabelece alianças, ocupa espaços institucionais e cria uma rede de relações que, ao longo do tempo, ultrapassa a própria figura do líder. É desse processo que surge o chamado capital político familiar em torno de um mesmo sobrenome”, explicou.
Como essas famílias conseguem sobreviver ao tempo?
Segundo o cientista político, o sobrenome ajuda, mas não garante a continuidade política.
Os chamados herdeiros políticos recebem uma vantagem inicial por carregarem um nome conhecido, mas precisam manter as alianças, ampliar suas redes e conquistar seus próprios votos.
“O sobrenome ajuda porque carrega reconhecimento, memória e uma rede de relações já construída, mas ele não explica tudo. Essas famílias sobreviveram porque souberam distribuir seu capital político entre diferentes gerações, cargos, municípios e alianças, adaptando-se às mudanças do sistema político”, afirmou João Vilas Boas.
Para ele, portanto, é mais adequado falar em reprodução do poder do que simplesmente em herança política.
“O filho ou o neto não recebe automaticamente os votos do pai ou do avô. Na verdade, ele recebe uma vantagem inicial: um sobrenome, já acompanhado de uma rede de relações e visibilidade, e consegue transformar esse patrimônio em votos e continuidade política”, explicou.
ACM Neto tenta recolocar os Magalhães no centro do poder na Bahia
Entre os grupos políticos tradicionais do Nordeste, a família Magalhães ocupa um espaço de destaque na história da Bahia.
Agora, ACM Neto (União Brasil) tenta novamente colocar o sobrenome da família no centro da disputa pelo poder no estado.
ACM consolidou a força dos Magalhães
O primeiro integrante da família a entrar na política foi o médico Francisco Peixoto de Magalhães, que foi deputado federal pela Bahia por três mandatos.
Foi seu filho, Antônio Carlos Magalhães (ACM), porém, quem ampliou de forma significativa a influência da família.

ACM foi deputado federal entre 1958 e 1967 e apoiou o movimento político de 1964, que retirou o presidente João Goulart do poder e deu início ao regime militar que durou até 1985.
Durante o regime, ACM ocupou importantes posições políticas. Em 1967, tornou-se prefeito de Salvador, cargo que exerceu até 1970.
Em 1971, chegou ao governo da Bahia por eleição indireta. Anos depois, voltou ao cargo e conseguiu eleger seu sucessor, João Durval, durante o processo de abertura política do país.
Em 1990, ACM voltou a governar a Bahia, desta vez eleito pelo voto popular, depois de ter ocupado o Ministério das Comunicações durante o governo de José Sarney.
O projeto de continuidade política da família também passou pelo seu filho, Luís Eduardo Magalhães, que chegou à presidência da Câmara dos Deputados.
No auge da influência da família, ACM e Luís Eduardo chegaram a ocupar simultaneamente as presidências do Senado e da Câmara.
A morte precoce de Luís Eduardo, em 1998, alterou os rumos do grupo político conhecido como Carlismo.
Foi então que seu sobrinho, Antônio Carlos Magalhães Neto, o ACM Neto, assumiu um papel central na continuidade do grupo.
ACM Neto construiu sua própria trajetória
ACM Neto iniciou sua carreira eleitoral em 2002, quando foi eleito deputado federal pelo então PFL. Quatro anos depois, conseguiu a reeleição.
Em 2008, disputou pela primeira vez a Prefeitura de Salvador, mas terminou a eleição na terceira colocação.
Em 2010, foi novamente eleito deputado federal. Dois anos depois, chegou à Prefeitura de Salvador após vencer Nelson Pelegrino, do PT, no segundo turno.
Em 2016, foi reeleito prefeito com ampla votação e permaneceu no cargo até o final de 2020.
Em 2022, ACM Neto disputou o governo da Bahia e chegou ao segundo turno contra Jerônimo Rodrigues (PT). O petista venceu a eleição, adiando o retorno do grupo dos Magalhães ao comando do governo estadual.

Para 2026, ACM Neto busca equilibrar o peso do sobrenome familiar com a construção de uma imagem política própria.
Alagoas reúne Calheiros, Lira e Caldas em uma disputa familiar
Alagoas tem uma longa história de influência de famílias tradicionais na política.
Após o enfraquecimento do grupo ligado ao ex-presidente Fernando Collor de Mello, os clãs Calheiros e Lira ganharam espaço e passaram a disputar influência no estado.

Calheiros ampliaram sua influência
Renan Calheiros (MDB) iniciou sua trajetória política ainda durante o governo de Fernando Collor, quando era deputado federal.
Ele se tornou senador em 1995 e ocupou a Presidência do Senado por duas vezes.
A influência da família também chegou ao governo estadual por meio de seu filho, Renan Filho (MDB), que foi prefeito de Murici e governador de Alagoas.
Renan Filho deixou o Ministério dos Transportes para disputar novamente o governo estadual, em uma estratégia que também fortalece o projeto político de seu pai no Senado.
JHC enfrenta Renan Filho com apoio de Arthur Lira
A disputa em Alagoas também colocou frente a frente os grupos ligados às famílias Calheiros, Lira e Caldas.
O ex-presidente da Câmara dos Deputados Arthur Lira, filho do ex-senador Benedito de Lira, passou a apoiar João Henrique Caldas, o JHC, na disputa pelo governo estadual.

JHC, ex-prefeito de Maceió, construiu sua trajetória política com forte presença familiar.
Sua mãe, Eudócia Caldas, assumiu uma cadeira no Senado como suplente. Além disso, sua esposa, Marina Antunes, conhecida como Marina JHC, integra a chapa que disputa uma vaga ao Senado ao lado de Arthur Lira.
Assim, a eleição coloca no centro da disputa três grupos familiares com forte presença na política alagoana.
Pernambuco coloca Arraes, Campos e Lyra em lados diferentes
Em Pernambuco, a disputa também envolve famílias tradicionais.
Miguel Arraes, uma das principais lideranças da esquerda brasileira no século XX, foi governador do estado e teve seu mandato interrompido pelo movimento de 1964.

Depois de retornar do exílio, voltou ao governo de Pernambuco em 1987 e novamente em 1995.
Seu legado político passou principalmente para os netos Eduardo Campos e Marília Arraes.
Eduardo Campos foi governador por dois mandatos e morreu em 2014, durante a campanha presidencial.
Seu filho, João Campos (PSB), seguiu sua trajetória política e tornou-se prefeito do Recife.
João Campos e Marília Arraes chegaram a disputar a Prefeitura do Recife em 2020. João venceu a eleição.

Agora, os dois voltaram a se aproximar politicamente. Marília passou a apoiar João na disputa pelo governo de Pernambuco e foi lançada como candidata ao Senado na chapa de oposição.
Do outro lado está a governadora Raquel Lyra (PSD), candidata à reeleição.

Raquel também pertence a uma família tradicional da política pernambucana. Ela é filha de João Lyra Neto, que foi governador do estado e prefeito de Caruaru.
A disputa reúne, portanto, diferentes grupos familiares que possuem longa história na política de Pernambuco.
Maranhão aproxima os grupos Brandão e Sarney
No Maranhão, o governador Carlos Brandão (MDB) também busca ampliar a influência de seu grupo político.
Brandão chegou ao governo após a saída de Flávio Dino, em 2022, quando assumiu o cargo e posteriormente foi eleito para um mandato completo.
Agora, Brandão trabalha para fortalecer seu grupo com o lançamento da candidatura de seu sobrinho, Orleans Brandão.

O projeto também conta com uma aproximação com a tradicional família Sarney, que durante décadas teve forte influência política no Maranhão.
O ex-presidente José Sarney é o principal nome da família, enquanto sua filha, Roseana Sarney, ex-governadora e deputada federal, disputa uma vaga ao Senado.

A aliança aproxima dois grupos familiares tradicionais da política maranhense.
Família Ferreira Gomes aparece dividida no Ceará
No Ceará, a situação é diferente.
A tradicional família Ferreira Gomes está dividida politicamente.
Ciro Gomes (PSDB) voltou a disputar espaço no estado depois de concorrer à Presidência da República em 2018 e 2022.

Durante anos, Ciro esteve próximo do grupo político que atualmente governa o Ceará, mas rompeu com antigos aliados após divergências envolvendo a sucessão estadual.
Seu irmão, Cid Gomes, tomou outro caminho e passou a apoiar o grupo liderado pelo governador Elmano de Freitas (PT).
Os dois irmãos, portanto, estão em lados diferentes da disputa política no Ceará.
Uma derrota eleitoral pode enfraquecer uma família política?
Para o cientista político João Vilas Boas, perder uma eleição não significa necessariamente o fim de uma família política.
Segundo ele, a capacidade de recuperação depende da estrutura que permanece depois do resultado das urnas.
“Uma derrota pode enfraquecer um grupo, mas não significa necessariamente o fim de uma família política. O que determina sua capacidade de recuperação é o tamanho da rede que permanece depois da eleição: prefeitos, vereadores, deputados, alianças, estrutura partidária e, principalmente, a capacidade de formar uma nova geração de lideranças. Na política, perder uma eleição pode ser apenas um recuo”, explicou.
O enfraquecimento mais profundo, segundo o analista, ocorre quando um grupo perde a capacidade de renovar suas lideranças e de transformar a influência de uma geração em força política para a seguinte.
“O declínio mais profundo acontece quando o grupo perde a capacidade de renovar seus quadros e de transformar o capital político de uma geração em força eleitoral para a seguinte”, afirmou.
As eleições de 2026, portanto, colocam novamente em evidência o peso das famílias tradicionais na política nordestina. Em diferentes estados, sobrenomes conhecidos continuam presentes nas disputas por governos, Senado e outros cargos.
O resultado das urnas mostrará como essas estruturas familiares se sairão diante de novos grupos, alianças e lideranças que também buscam espaço no cenário político da região.
O primeiro turno das eleições está marcado para 4 de outubro de 2026. Caso haja segundo turno, a votação ocorrerá em 25 de outubro.


É por isso que o Nordeste continua da forma que está, o povo sempre repetindo as mesmas figurinhas, os políticos fazendo da política uma profissão!!!
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