Casas Bahia, Braskem e outras gigantes em crise acendem alerta sobre a economia do Brasil

ECONOMIA

Crise de grandes empresas expõe desafios da economia brasileira

Outras empresas conhecidas que estão enfrentando dificuldades

A crise financeira que atingiu grandes empresas brasileiras mostra que os problemas da economia do país vão muito além de dificuldades pontuais. Conflitos societários, falhas de gestão, juros elevados, restrição de crédito e mudanças no comportamento dos consumidores estão entre os fatores que ajudam a explicar a deterioração financeira de companhias conhecidas e a busca por processos de reestruturação.

Para o consultor João Nogueira Batista, ouvido pelo especial “A Crise de Grandes Marcas”, da CNN Money, nesta quinta-feira (3), o cenário econômico tem pesado principalmente sobre empresas que dependem de capital de giro para manter suas operações.

Segundo ele, os juros reais elevados são especialmente prejudiciais ao varejo.

“Para o varejo, que trabalha muito com capital de giro, é mortal. Passar alguns anos pagando taxas de juros reais da ordem de mais de 10% é uma loucura, não há business que se sustente”, afirmou.

Casas Bahia é um dos exemplos

Um dos casos que ajudam a mostrar a dimensão do problema é o da Casas Bahia. A empresa entrou com pedido de recuperação judicial em agosto deste ano, com R$ 17,3 bilhões em dívidas. Considerando também os créditos que ficam fora da recuperação, o passivo total supera R$ 27,8 bilhões.

A companhia aponta entre os motivos da crise o cenário macroeconômico desfavorável, os juros elevados, a dificuldade de acesso ao crédito, o aumento dos custos financeiros e a pressão sobre o consumo e o capital de giro.

A situação, porém, não começou com o pedido de recuperação judicial. Em 2024, a empresa já havia recorrido à recuperação extrajudicial para renegociar cerca de R$ 4,1 bilhões em dívidas.

A estratégia buscava alongar os prazos dos compromissos, reduzir os desembolsos até 2027 e dar mais fôlego ao caixa para que a companhia pudesse colocar em prática seu plano de transformação.

Além dos problemas financeiros, a Casas Bahia também enfrenta uma mudança profunda no setor de varejo. O crescimento das compras pela internet alterou o comportamento dos consumidores e aumentou a pressão sobre empresas que mantêm grandes redes de lojas físicas.

Com espaços que podem ficar ociosos e custos fixos elevados, essas empresas passaram a enfrentar uma concorrência cada vez maior das plataformas digitais.

“A compras online iriam afetar os custos das empresas que estão baseadas em grandes parques de lojas, porque os espaços passaram a ficar ociosos e mantendo o custo elevado”, afirmou Batista.

O fenômeno é especialmente visível nos setores de roupas, calçados, eletrônicos e outros produtos vendidos tradicionalmente em grandes redes.

Concorrência internacional aumenta pressão

A concorrência também ganhou uma nova dimensão com o crescimento das plataformas internacionais de comércio eletrônico.

Nesse contexto, o fim da chamada “taxa das blusinhas” pode aumentar ainda mais a pressão sobre empresas brasileiras. O Congresso Nacional aprovou nesta quinta-feira (3) a medida provisória que zera o Imposto de Importação para compras internacionais de até US$ 50.

A mudança é criticada por representantes da indústria e do comércio, que argumentam que a medida pode aumentar a diferença de competitividade entre empresas instaladas no Brasil e plataformas estrangeiras.

Sucessão também pode agravar os problemas

Outro ponto destacado por Batista é a estrutura de controle das empresas. Muitas companhias brasileiras são familiares e enfrentam dificuldades quando chega o momento de transferir o comando para uma nova geração.

A sucessão pode se transformar em um problema quando não existe uma transição organizada ou quando os conflitos entre os sócios acabam interferindo na administração da empresa.

O consultor também alerta que profissionalizar a gestão não significa, necessariamente, melhorar os resultados.

Segundo ele, em alguns casos, empresas familiares foram mais eficientes quando administradas por pessoas da própria família que conheciam profundamente o negócio do que quando passaram o comando para profissionais que não tinham a mesma experiência no setor.

Braskem mostra quando a crise deixa de ser passageira

A situação da Braskem é outro exemplo de como uma dificuldade financeira pode se transformar em um problema estrutural.

A petroquímica apresentou em agosto pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar aproximadamente US$ 10,9 bilhões em dívidas.

Para Batista, que acompanhou a companhia como conselheiro durante seis anos, a crise da Braskem não pode ser explicada apenas pelo comportamento tradicional do setor petroquímico.

Historicamente, o segmento enfrentava ciclos de alta e baixa na oferta e na demanda. Nos últimos anos, porém, o cenário mudou.

O aumento da produção mundial, principalmente de fábricas que utilizam gás etano, alterou a competição internacional. A Braskem, por sua vez, possui forte exposição à nafta, derivada do petróleo, o que aumenta seu custo de produção em comparação com concorrentes que utilizam matérias-primas mais baratas.

A consequência foi uma forte redução da rentabilidade da empresa.

A Braskem também enfrenta impactos financeiros relacionados ao desastre geológico em Maceió e à situação de sua operação no México.

O problema ficou ainda mais evidente com a queda do Ebitda, indicador utilizado para avaliar a geração operacional de caixa de uma empresa.

Segundo Batista, a dívida da Braskem, por si só, não era necessariamente o maior problema. A companhia chegou a trabalhar com prazo médio de dívida de aproximadamente 14 anos.

O cenário mudou quando o Ebitda caiu. Com menor geração de resultado, a relação entre a dívida e a capacidade de pagamento da empresa aumentou significativamente.

Um alerta para o Brasil

Os casos de Casas Bahia e Braskem mostram que a crise enfrentada por grandes empresas brasileiras não tem uma única causa.

Juros elevados, dificuldade de acesso ao crédito, mudanças no comportamento do consumidor, aumento da concorrência internacional, problemas de gestão, conflitos entre sócios e dificuldades de sucessão podem se combinar e transformar uma dificuldade passageira em uma crise de grandes proporções.

E esse cenário representa um desafio importante para o próximo presidente da República. O problema se escalonou e já atingiu marcas de grande prestígio e empresas que possuem peso significativo para a economia brasileira, seja pela geração de empregos, pelos investimentos ou pela movimentação de dinheiro em diferentes setores.

Mais do que casos isolados, a situação serve como um recorte de como anda a economia brasileira. Quando empresas tradicionais, conhecidas por milhões de consumidores, precisam renegociar dívidas ou buscar recuperação judicial e extrajudicial, o sinal de alerta fica ainda mais forte.

O próximo governo terá pela frente a difícil tarefa de criar um ambiente que favoreça investimentos, crédito, geração de empregos e crescimento econômico, sem deixar de enfrentar problemas estruturais que se acumulam há anos.

Não tem sido fácil para ninguém. E a crise de grandes marcas mostra que o desafio da economia brasileira é maior do que parece e exigirá decisões importantes nos próximos anos.

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