Multinacional do chocolate “Barry Callebaut” é condenada após casos de trabalho infantil na Bahia e no Pará

JUSTIÇA

A subsidiária brasileira da multinacional suíça Barry Callebaut, uma das maiores produtoras de chocolate do mundo, foi condenada pela Justiça a pagar indenização por danos morais coletivos devido à presença de trabalho escravo e trabalho infantil em sua cadeia de fornecedores de cacau no Brasil.

A ação foi movida pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) e ficou em segredo de Justiça até novembro do ano passado. O caso só veio a público após pedidos de informação feitos pela Repórter Brasil e pelo portal suíço Tages Anzeiger ao Tribunal Superior do Trabalho (TST).

Em decisões de primeira e segunda instâncias, em 2022 e 2023, a empresa foi condenada a pagar R$ 500 mil e obrigada a adotar medidas para combater o trabalho escravo e infantil em sua cadeia de fornecimento.

Desde dezembro de 2024, o processo aguarda decisão final no TST. A relatora do caso, ministra Delaíde Miranda Arantes, informou que os recursos devem ser julgados nos primeiros meses de 2026.

Na ação, o MPT afirma que a empresa comprava cacau sem fiscalização efetiva, inclusive de fornecedores flagrados explorando trabalhadores em condições análogas à escravidão e utilizando mão de obra infantil.

Procurada, a Barry Callebaut informou que não comenta processos em andamento, mas declarou que condena qualquer violação de direitos humanos e afirma ter políticas internas contra exploração de crianças e trabalhadores. A empresa também disse que desenvolve programas no Brasil para melhorar suas práticas na cadeia produtiva.


Entenda o caso

As investigações começaram em 2016 e identificaram indícios de trabalho escravo e infantil em áreas produtoras de cacau no Pará e na Bahia, dois dos principais estados produtores do país. Segundo o MPT, essas regiões faziam parte da cadeia de fornecimento da empresa no Brasil.

As apurações apontaram:

  • uso frequente de trabalho infantil;

  • trabalhadores em condições degradantes;

  • servidão por dívida;

  • jornadas exaustivas;

  • moradias precárias;

  • e coerção de produtores para venderem apenas a compradores específicos, prática ilegal.


Flagrante de trabalho escravo na Bahia

Em setembro de 2017, uma fiscalização resgatou nove trabalhadores em condições análogas à escravidão na Fazenda Diana, em Uruçuca (BA).

Segundo o relatório:

  • trabalhadores e crianças tomavam banho em uma represa;

  • a água para consumo era imprópria, retirada de um poço raso com presença de animais;

  • os alojamentos foram interditados por oferecerem risco grave à saúde.

O MPT identificou, por meio de notas fiscais, que o cacau dessa fazenda era vendido a fornecedores diretos da Barry Callebaut no Brasil.

Em 2020, o MPT propôs um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para a empresa, mas a Barry não aceitou o acordo.


Justiça reconhece responsabilidade da empresa

A Justiça entendeu que a empresa não pode se omitir diante de práticas ilegais em sua cadeia produtiva.
Em segunda instância, o Tribunal Regional do Trabalho afirmou que ficou comprovado que a empresa se beneficiou, mesmo que de forma indireta, da exploração de trabalhadores em condições desumanas.


Recursos no TST

  • o MPT pede aumento da indenização de R$ 500 mil para R$ 110,8 milhões, além de campanhas educativas contra trabalho infantil e escravo;

  • a Barry Callebaut pede a anulação da condenação, alegando que apenas compra o cacau e não tem responsabilidade sobre a produção.

Para o MPT, empresas desse porte não são apenas compradoras, pois dominam o mercado e têm responsabilidade direta sobre o que acontece em sua cadeia produtiva.


Medidas obrigatórias

Mesmo antes do fim do processo, a Justiça determinou, em abril de 2021, que a empresa começasse a cumprir medidas, sob multa diária de R$ 10 mil.

Entre as exigências estão:

  • formalização de contratos com produtores e fornecedores;

  • proibição total de crianças e adolescentes em qualquer etapa da produção do cacau.

Em 2025, o MPT notificou a empresa para comprovar o cumprimento dessas medidas. A documentação foi entregue e está em análise pelos procuradores.