Capa da reportagem sobre o reajuste do Bolsa Família para R$ 691

Bolsa Família sobe para R$ 691 e reacende debate eleitoral

DESTAQUES

O governo federal anunciou um reajuste de 15,04% nos valores do Bolsa Família. Com a mudança, o benefício mínimo garantido por família passará de R$ 600 para R$ 691, enquanto o valor médio deverá subir de R$ 675 para R$ 777.

Os novos valores terão efeitos financeiros a partir de outubro e começarão a ser pagos no dia 19, conforme o calendário organizado pelo número final do NIS. A correção foi calculada com base no INPC acumulado entre março de 2023, quando o programa foi reformulado, e agosto de 2026.

Presidente Lula e ministros durante anúncio do reajuste do Bolsa Família
Lula durante o anúncio do reajuste do Bolsa Família. Foto: Ricardo Stuckert/PR

Veja os novos valores do Bolsa Família

Benefício Valor anterior Novo valor
Mínimo por família R$ 600 R$ 691
Valor médio estimado R$ 675 R$ 777
Renda de Cidadania por integrante R$ 142 R$ 164
Primeira Infância R$ 150 R$ 173
Variável Familiar R$ 50 R$ 58

O Benefício Variável Familiar é destinado, entre outros públicos, a gestantes, nutrizes e crianças e adolescentes de 7 a 18 anos. Já o adicional da Primeira Infância é pago por criança de até 6 anos. O valor recebido por cada família continua variando conforme o número e a composição dos integrantes.

Impacto de R$ 5,8 bilhões ainda em 2026

Segundo o governo, o reajuste representará um custo adicional de aproximadamente R$ 5,8 bilhões neste ano e de cerca de R$ 22 bilhões em 2027. Atualmente, o programa atende aproximadamente 19,3 milhões de famílias em todo o país.

A equipe econômica afirma que a despesa de 2026 será acomodada dentro do orçamento, utilizando parte do espaço aberto pela redução da fila do INSS. Para 2027, o Executivo informou que fará ajustes na proposta orçamentária em tramitação no Congresso. O governo, porém, ainda não detalhou quais dotações poderão ser remanejadas.

Anúncio às vésperas da eleição gera críticas

O momento escolhido para o anúncio colocou a medida no centro do debate eleitoral. O reajuste foi divulgado em 17 de setembro, a 17 dias do primeiro turno, marcado para 4 de outubro. Os pagamentos começam em 19 de outubro, no período entre o primeiro e o eventual segundo turno, previsto para o dia 25.

Adversários do presidente Lula (PT) classificaram a iniciativa como eleitoreira e alegaram possível uso da máquina pública para influenciar o voto. O governo rejeita a acusação e sustenta que não houve criação de um benefício novo, mas apenas recomposição do poder de compra de um programa permanente, prevista na legislação do Bolsa Família.

Afinal, o reajuste pode ou não pode?

A legislação eleitoral proíbe, em regra, a distribuição gratuita de bens, valores ou benefícios pela administração pública no ano da eleição. A própria norma, entretanto, prevê exceções para programas sociais autorizados em lei e que já estejam em execução orçamentária no exercício anterior.

A Advocacia-Geral da União argumenta que o Bolsa Família se enquadra nessa exceção por ser uma política pública permanente e porque seus valores estavam sem correção desde 2023. A oposição contesta essa interpretação e afirma que a magnitude e o calendário do reajuste podem afetar a igualdade entre os candidatos.

Ministro André Mendonça, relator da ação contra o reajuste do Bolsa Família
André Mendonça rejeitou a ação por questão processual, sem analisar o mérito. Foto: Nelson Jr./SCO/STF

O deputado federal Zé Trovão (PL-SC) apresentou uma ação para tentar suspender o reajuste. Relator do caso no Tribunal Superior Eleitoral, o ministro André Mendonça rejeitou o pedido por uma questão processual: entendeu que o parlamentar, candidato a deputado federal, não tinha legitimidade para ajuizar a ação contra um candidato à Presidência, pois os cargos são disputados em circunscrições diferentes.

A decisão não analisou o mérito. Isso significa que Mendonça não declarou o reajuste legal ou ilegal e que a controvérsia jurídica poderá voltar à Justiça por meio de outra ação apresentada por parte legitimada.

Comparação com o Auxílio Brasil de 2022

O debate remete a 2022, quando o Congresso aprovou a chamada “PEC Kamikaze” e o governo Jair Bolsonaro elevou o Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600, além de criar auxílios para caminhoneiros e taxistas a poucos meses das eleições.

Em agosto de 2024, o Supremo Tribunal Federal considerou inconstitucionais trechos da Emenda Constitucional 123/2022 que instituíram um estado de emergência para ampliar despesas sociais em ano eleitoral. Para a maioria dos ministros, a manobra violou princípios como a igualdade de oportunidades entre candidatos.

O governo Lula afirma que a situação atual é diferente porque a correção foi feita por decreto, com base no INPC e dentro de um programa já existente. Críticos sustentam que a proximidade das eleições e o início dos pagamentos entre os turnos mantêm a suspeita de finalidade eleitoral. Até o momento, não há decisão judicial definitiva sobre a validade do novo reajuste.


Fontes: Agência Brasil, Agência Brasil — Justiça, Poder360 e Supremo Tribunal Federal.

 

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