Taxa das blusinhas encarece produtos e pressiona governo Lula em ano eleitoral

POLÍTICA

A chamada “taxa das blusinhas” passou a pesar no bolso do consumidor e virou também um tema sensível no cenário político.

A medida resultou em aumento de preços no varejo nacional, sem evidências claras de geração de emprego e renda, segundo estudo da Global Intelligence and Analytics, obtido pela Broadcast. O levantamento foi encomendado pela Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que reúne empresas como 99, Alibaba, Amazon e Shein plataformas diretamente afetadas pela taxação de produtos importados.

O imposto de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 reduziu a procura por produtos mais baratos vindos do exterior, atingindo principalmente consumidores de baixa renda, que costumam depender desse tipo de compra para economizar.

A medida foi aprovada pelo Congresso e sancionada pelo presidente Lula em 2024, após pressão do varejo nacional. Desde então, o tema ganhou destaque no debate público e passou a ser visto como um dos pontos de desgaste para o governo, especialmente em um ano eleitoral.

Impacto no bolso do consumidor

O estudo aponta que houve aumento de preços em diversos produtos após a implementação da taxa. Entre agosto de 2024 e setembro de 2025, os maiores reajustes foram registrados em:

  • Cosméticos: +17%
  • Bijuterias: +16%
  • Papelaria: +13%
  • Calçados: +9%
  • Vestuário: +7,1%

Esses aumentos contribuíram para pressionar a inflação no período, afetando principalmente as classes C, D e E, que representam cerca de 67,5% dos consumidores.

Além disso, houve uma queda estimada de 56% nas importações de compras de até US$ 50, reduzindo o acesso da população mais pobre a produtos mais baratos.

Arrecadação cresceu, mas abaixo do esperado

Com a maior fiscalização das compras internacionais, os valores importados saltaram de US$ 500 milhões em 2022 para US$ 2,75 bilhões em 2024. No entanto, a arrecadação federal não acompanhou o mesmo ritmo, passando de R$ 1,5 bilhão para R$ 2,9 bilhões no período.

Emprego e renda

Segundo o estudo da Amobitec, não há indícios de que a medida tenha melhorado o nível de emprego ou salários no varejo nacional. Os dados mostram que tanto o emprego quanto a renda seguiram praticamente o mesmo comportamento, com ou sem a proteção da nova tarifa.

Os salários no setor continuam abaixo da média nacional, girando em torno de R$ 2,6 mil mensais, contra mais de R$ 3,6 mil da média geral dos trabalhadores brasileiros.

Divergência de visões

Enquanto o estudo da Amobitec aponta ineficiência da política, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) defende que a taxa ajudou a preservar empregos e evitar a entrada de R$ 4,5 bilhões em produtos importados.

Peso político da medida

Com impacto direto no custo de vida, a “taxa das blusinhas” passou a ter relevância no cenário eleitoral. Medidas que afetam preços e consumo tendem a influenciar a percepção da população sobre o governo, principalmente entre os eleitores de menor renda, mais sensíveis à inflação.

Diante disso, o governo já discute possíveis mudanças na regra, incluindo a redução ou revisão da taxa por meio de medida provisória. No Congresso, também há propostas para retomar o modelo de isenção para compras de baixo valor (de minimis).

Conclusão

O debate sobre a “taxa das blusinhas” mostra um cenário dividido: de um lado, a tentativa de proteger o comércio nacional; do outro, o impacto direto no bolso do consumidor, especialmente o de baixa renda. Em ano eleitoral, esse tipo de medida ganha ainda mais peso, por influenciar tanto a economia quanto a avaliação do governo pela população.