Governadores cobram endurecimento e criticam resistência da esquerda ao combate às facções

POLÍTICA

Direita pressiona por endurecimento das leis e quer classificar facções como terroristas

A operação policial mais letal da história do Brasil, que terminou com 121 mortos no Rio de Janeiro, abriu um novo debate nacional e fortaleceu uma bandeira política da direita: classificar as facções criminosas como organizações terroristas.
Segundo o Datafolha, 57% dos moradores do Rio aprovam a ação, o que deu força a governadores e parlamentares de oposição que defendem medidas mais duras contra o crime organizado.

Enquanto isso, o governo Lula e setores da esquerda resistem à proposta. O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, afirmou que o governo “não vê relação entre terrorismo e facções criminosas”, alegando que o terrorismo teria caráter político ou ideológico.

A fala, porém, gerou forte reação da oposição. Governadores como Tarcísio de Freitas (SP), que é cotado para disputar a Presidência em 2026, e outros líderes regionais reforçaram o discurso de que as facções como PCC e Comando Vermelho atuam com métodos típicos de terror, espalhando medo, controlando territórios e impondo a lei do crime sobre comunidades inteiras.

Para Tarcísio, negar a natureza terrorista dessas organizações é fechar os olhos para a realidade. O secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite, também retomou seu mandato como deputado federal para relatar o projeto que propõe a nova classificação. Segundo ele, os ataques de 2006 promovidos pelo PCC são exemplos claros de ações terroristas internas.

Analistas políticos avaliam que o tema tem forte apelo eleitoral, já que reflete o sentimento de grande parte da população cansada da violência e da sensação de impunidade. “A operação no Rio revelou uma insatisfação popular que estava abafada. A sociedade quer resposta e endurecimento”, afirmou Murilo Hidalgo, diretor do Instituto Paraná Pesquisas.

Nos últimos dias, governadores de diferentes estados — como Eduardo Riedel (MS), Mauro Mendes (MT) e Ibaneis Rocha (DF) — se uniram para pressionar o governo federal a adotar uma postura mais firme no combate às facções.

Especialistas lembram que até os Estados Unidos já consideraram incluir o PCC e outros grupos da América Latina em sua lista de organizações terroristas, por representarem ameaça direta à segurança e à estabilidade da região. “Essa é uma tendência global. Países democráticos tratam grupos armados que aterrorizam populações civis como terroristas”, observou o cientista político Marco Antonio Teixeira, da FGV-SP.

O governo, pressionado, tenta reagir. Lula anunciou um projeto criando o crime de “organização criminosa qualificada”, com pena de 8 a 15 anos para grupos que dominem territórios por meio da violência. No entanto, opositores dizem que o texto é tímido e não enfrenta o problema com a firmeza necessária.

Para os defensores da mudança, o Brasil não pode mais tratar o narcotráfico como simples criminalidade comum. “Quando facções impõem toque de recolher, controlam comunidades, matam inocentes e desafiam o Estado, isso é terrorismo”, afirmou o governador Cláudio Castro, do Rio. “Em qualquer país desenvolvido, alguém com um fuzil em via pública seria tratado como terrorista.”

A resistência da esquerda e do governo Lula a reconhecer essa realidade tem sido vista por críticos como uma postura ideológica ultrapassada, que enfraquece a política de segurança e impede avanços concretos no combate ao crime.

Enquanto o governo fala em “organizações criminosas qualificadas”, a oposição e grande parte da sociedade defendem um novo marco legal: reconhecer as facções como narcoterroristas, para permitir ações mais duras e integradas entre os estados e a União.